O que aprendi sobre encerrar ciclos e soltar pessoas, lugares e situações depois de quase quatro décadas de mortes e renascimentos.

Encerrar ciclos virou uma especialidade minha. Como alguém com fortes energias de escorpião e Plutão no meu mapa astrológico, eu convivo com finalizações na minha vida de forma bastante recorrente.
Eles acontecem na minha vida com uma frequência maior do que eu gostaria, confesso. E depois de quase quatro décadas caminhando por este planeta, já passei pelo ciclo de nascimento, morte e renascimento vezes suficientes para entender relativamente bem como seguir em frente quando algo na minha vida precisa morrer.
E é isso que eu vim compartilhar com você hoje. Como encerrar ciclos mesmo quando parece difícil.
Encerrar ciclos não é sempre fácil. Quase nunca é divertido. Acredite, eu sei. Mas não existe jeito de viver nossos sonhos sem fazer isso.
Não existe maneira de viver uma vida que valha a pena sem assumir riscos e tentar coisas novas.
Eu sei disso, você sabe disso.
Então, se você ainda está lutando com pessoas, lugares e situações que parecem difíceis de soltar, espero ajudar você a dar esse salto hoje.
Decidir seguir em frente e a falácia do custo irrecuperável

O primeiro passo para encerrar um ciclo é, obviamente, decidir seguir em frente.
Espero que você já tenha passado por essa parte, mas entendo se ainda se sentir em conflito. Acho que essa é a parte mais difícil porque, dependendo de quanta energia, esperança, tempo e dinheiro você investiu no que quer que você esteja deixando, a falácia do custo irrecuperável (sunk cost fallacy) sempre pega a gente.
Para quem não conhece, esse é um conceito muito usado no mundo dos negócios que descreve uma tendência irracional de continuar um projeto apenas por causa dos recursos já investidos, seja tempo, dinheiro ou esforço, mesmo quando os dados e os resultados mostram que continuar não vai compensar.
E fazemos a mesma coisa com diversas áreas da nossa vida, seja num relacionamento, em um trabalho em, numa amizade, com um lugar onde moramos, um sonho que parece impossível de realizar, e muitas outras coisas. E é assim que ciclos nunca são encerrados e a nossa vida parece que para no tempo.
No fundo, acreditamos que o investimento vai compensar em algum momento. E, ao nos agarrarmos a essa falácia, podemos continuar desperdiçando tempo, energia e recursos que poderiam ir para algo com potencial real de dar real retorno e de nos trazer muito mais satisfação. A isso chamamos de custo de oportunidade.
Um exemplo do mundo real: você dedica toda a sua energia e foco por cinco anos a uma empresa, mas nunca recebe o reconhecimento que merece. A promoção nunca chega. O aumento de salário é irrisório.
A tentação será sempre continuar, mesmo quando a possibilidade real de conseguir o que você merece é pequena, porque tendemos a dar peso demais ao tempo e à energia já investidos. Encerrar ciclos em situações assim costuma ser bastante desafiador.
Como saber a hora de parar ou desistir
Seth Godin, no livro “The Dip” (ou, O melhor do mundo: saiba quando insistir e quando desistir, na versão em português) faz uma bela distinção entre desistir do jeito certo e desistir do jeito errado. Nesse livro, ele tenta convencer as pessoas a persistir nos bons investimentos mesmo quando ainda não estão dando retorno, porque a recompensa depende do que ele chama de “the dip” (o “vale”): um período em que seus esforços não são recompensados, mas, se as suas razões forem as certas, vale a pena persistir.
Mas ele também explica como a maioria das pessoas gasta tempo demais insistindo no tipo errado de “investimento”.
Ele diz, e eu cito:
“Vencedores desistem o tempo todo. Só que desistem das coisas certas na hora certa.” Seth Godin.
E, para diferenciar a desistência boa da ruim, você pode se perguntar algumas coisas:
você ainda sente um chamado profundo para continuar (seja fazendo aquela atividade, permanecendo naquele lugar, naquele relacionamento, naquele emprego)? Ou está motivado apenas por não querer perder o que já colocou de investimento ali?
Você ainda ama fazer isso (ou estar nesse relacionamento, morar nessa casa, etc)?
Você está abrindo mão da chance de investir seu tempo e sua energia em algo que pode te trazer mais satisfação e retornos reais?
O custo de boas e melhores oportunidades perdidas (pela sua insistência no ciclo que precisa encerrar) também precisa ser levado em consideração na sua decisão.
Quando você reconhece que mais esforço não vai te recompensar do jeito que você imagina, você sabe que é hora de encerrar o ciclo e seguir em frente.
Solte o tempo, o dinheiro, a atenção, o amor, e a energia já gastos. Você VAI ficar melhor aceitando que talvez tenha perdido tudo isso. Que seu investimento foi ruim e você não vai receber o que deseja.
E eu sei, dói.
Talvez isso signifique abrir mão de uma graduação que não faz mais sentido para você. Talvez seja um relacionamento no qual você investiu muitos anos. Talvez seja deixar uma cidade que te viu crescer.
Mas este é o momento que pede uma honestidade crua e implacável: a sua realidade atual está realmente alinhada com o que você quer para si e para o seu futuro?
Uma das desistências mais difíceis da minha vida

Quero compartilhar um pouco de uma grande ciclo que se encerrou na minha própria vida recentemente para ilustrar o que quero dizer. Em 2021, me mudei para os Estados Unidos para fazer um mestrado em administração em uma universidade de ponta. Vou poupar você dos detalhes da jornada, mas basta dizer que eu queria alavancar minha carreira, e essa mudança exigiu muito tempo, dinheiro e energia da minha parte.
Depois da formatura, em 2023, mandei meu diploma de volta para o Brasil porque ia me mudar de Nova York para a Califórnia e não sabia se ele chegaria à minha casa antiga em NY a tempo. Quando chegou à casa da minha mãe, no Rio, ela me mandou uma foto segurando o diploma e sorrindo.
Não sei explicar por quê, mas tive uma mini-iluminação naquele momento. No segundo em que vi aquela foto e percebi o quanto ela estava orgulhosa, eu SOUBE, no fundo do meu ser, que eu tinha feito aquele curso por ela.
Na minha mente consciente, eu tinha todas as razões perfeitas para ter me mudado para outro país por aquele diploma. Dizia a mim mesma que estava fazendo isso apenas para avançar na carreira.
Mas, em um nível mais profundo, era mais do que os motivos que minha mente consciente me dava. E, infelizmente, era algo que eu não conseguia enxergar com clareza quando tomei a decisão de ir: tinha mais a ver com ela e com as expectativas colocadas sobre minha educação e vida profissional do que com os meus desejos mais verdadeiros.
E advinha só: minha vida profissional NÃO DECOLOU de forma alguma, mesmo com um diploma de umas das melhores universidades do mundo e com uma carreira bastante relevante.
Foi quando percebi que eu estava perseguindo algo pelos motivos errados. E, mesmo assim, ainda levei mais dois anos para finalmente parar de tentar construir uma carreira no mundo corporativo e recomeçar minha vida fazendo algo mais alinhado com quem eu sou.
Então sim, encerrar ciclos pode ser difícil.
Às vezes você construiu uma identidade inteira com base em premissas falsas.
Às vezes você precisa deixar para trás grandes sonhos, metas e expectativas. Não só suas, mas de outras pessoas também.
Mas, seguir em frente na velha vida e com os velhos planos, em casos como esse, só significa perder MAIS TEMPO e não tomar escolhas realmente alinhadas com o bem mais elevado da nossa alma.
Seja honesto(a) consigo mesmo(a).
Você é forte o bastante para fazer isso.
Se você está procurando finais perfeitos, nunca vai conseguir seguir em frente.

Então o próximo passo é parar de esperar por finais perfeitos.
Tomar a decisão de encerrar o ciclo é a parte mais difícil, na minha opinião.
Mas esperar por finais perfeitos é onde você procrastina.
Se você foi honesto(a) consigo mesmo(a) e fez seu trabalho interno de forma boa suficiente para reconhecer que é hora de algo na sua vida morrer, o que vem a seguir exige ainda mais de você.
Na sociedade ocidental, não nos ensinam a lidar com finais e com a morte. Fingimos que tudo o que existe agora vai durar para sempre, até que a vida e a natureza façam a sua parte e levem o que pensávamos ter.
Se você é uma boa pessoa, com pelo menos um pouco de responsabilidade emocional por si e pelos outros, pode esperar que os finais aconteçam de um jeito específico: em paz, com entendimento mútuo (quando envolve outras pessoas), com a mente clara e o coração leve.
Mas, se você já caminhou por este planeta por tempo suficiente, sabe que raramente é assim. Finais perfeitos não existem. Encerrar ciclos dói. Finais perfeitos são um produto da nossa imaginação. Não estou dizendo que um final pacífico seja impossível, mas que ele raramente acontece do jeito que imaginamos.
Às vezes o seu parceiro amoroso não vai querer deixar você ir, e você precisa ser extremo(a) para cortar a conexão.
Às vezes você precisa começar a procurar um novo emprego em silêncio e sair sem avisar para fazer entrevistas porque o ambiente atual do seu trabalho é tóxico demais para permitir que você seja honesto.
Às vezes você precisa largar a faculdade e sentir que está desperdiçando o dinheiro dos seus pais porque o peso de estudar algo que você odeia está destruindo a sua saúde mental.
Às vezes você vai sair de casa pela primeira vez e sentir que está abandonando sua mãe e seu pai, caso sua tendência ao longo da vida tenha sido sentir-se responsável por eles.
Na maioria das vezes, encerrar ciclos é um processo meio bagunçado. A essa altura, eu praticamente aceito isso como parte da vida
Por favor, faça o melhor que puder agora, porque a estratégia de saída perfeita provavelmente não existe.
Dê o próximo pequeno passo em direção à sua próxima vida e ajuste a rota ao longo do caminho.

A próxima fase é dar pequenos passos em direção ao seu novo começo e se adaptar pelo caminho. E isso depende do que você está encerrando e do que vai começar a seguir. Se você está terminando um relacionamento amoroso, não recomendo necessariamente começar outra conexão logo em seguida. Mas, em outras áreas da vida, experimente um pouco da novidade e, ao mesmo tempo, vai soltando aos poucos o velho até que ele não faça mais tarde da sua realidade.
E também não me entenda mal: existe tempo e lugar para o planejamento.
Se você quer deixar seu emprego para empreender, mas tem filhos pequenos e financiamento de casa própria, certamente será melhor garantir que você esteja coberto financeiramente por um tempo antes de dar o salto.
Mas, se a tarefa inteira de seguir em frente parecer grande demais, o excesso de planejamento pode virar uma forma de procrastinação em vez de uma decisão responsável.
Crie sua loja virtual e ofereça o que você já tem em vez de esperar por um catálogo completo de produtos.
Publique seu primeiro vídeo no YouTube.
Marque uma visita para ver o apartamento que você está sonhando em alugar.
Compre os livros de que você precisa para se preparar para a pós-graduação.
Calce o tênis e caminhe hoje por 30 minutos se quiser emagrecer, ao invés de esperar pelo conjuntinho completo de fitness da Shein pra ir pra academia.
Comece a se mover em direção à sua nova vida antes de ter tudo resolvido.
Os finais ficam mais suportáveis quando nos permitimos ter um vislumbre do que vem a seguir.
Você não precisa ver o filme inteiro, só precisa assistir ao trailer.
Experimente um pouco.
Perceba como você se sente.
Perceba o que isso faz com a sua energia. Registre. Reflita sobre isso. E repita.
O primeiro passo costuma ser pequeno e, depois que você começa, o impulso cresce rápido quando você foca a sua energia.
Conecte-se com a realidade que você quer na sua imaginação

Às vezes, no momento de encerrar um ciclo, o caminho seguinte está claro diante de nós, mas muitas vezes não está.
É aí que viver um pouco dentro da sua imaginação todos os dias pode ajudar muito.
Se você se sente muito ancorado(a) na sua realidade atual, no jeito como as coisas parecem e são agora, pode ser difícil acreditar que seus sonhos são possíveis.
É aí que trabalhar com o seu mundo interior e usar o seu lindo hemisfério direito do cérebro pode fazer maravilhas.
Quero escrever um ensaio inteiro sobre usar os dois lados do cérebro para navegar pela vida, unindo lógica e imaginação, mas isso fica para outra hora. Por ora, só quero dizer que todos nós poderíamos nos beneficiar de convidar mais magia para dentro da vida.
É lá que a sua imaginação vive. Nós a usávamos o tempo todo quando éramos crianças e depois aprendemos a reprimi-la. A maioria de nós é mantida refém pelo lado lógico e analítico, mas a vida fica mais inteira quando honramos também a nossa imaginação.
Dedique um tempo todos os dias para nutrir os sentimentos da próxima fase que você quer viver. As possibilidades são ilimitadas. Quando você começar a viver a sua nova vida de dentro para fora, dar os passos para chegar lá vai parecer muito mais fácil.
Se você quiser, me conte o que você está tendo dificuldade de soltar e qual ciclo está na hora de encerrar. Vou adorar ler.
Agradeço por ter passado esse tempo comigo. Espero que isso tenha trazido um pouco mais de clareza e coragem para você dar o passo rumo à próxima aventura da sua vida. 🙂
Se temas de autoconhecimento te interessam, você pode curtir meu canal no youtube:
https://www.youtube.com/@EuGiseMello
Um beijo,
Giselle Mello.
Livro mencionado no artigo:
O melhor do mundo: saiba quando insistir e quando desistir (Seth Godin)
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