Você não está atrasado na vida. Entenda como as redes sociais distorcem nossa percepção de sucesso, por que procrastinamos em tarefas essenciais e como voltar ao que realmente importa.

Acredite em mim: você não está atrasado na vida. O que aconteceu é que as redes sociais, de repente, bagunçaram a nossa mente, ou a nossa percepção daquilo que deveríamos ter conquistado ou deveríamos ter.
E, paradoxalmente, por causa da quantidade enorme de informação e de conteúdo que a gente consome todos os dias, muitas vezes a gente perde tempo, procrastina e, aí sim, de fato, se atrasa naquilo que é importante e desejamos construir.
Quero bater um papo com vocês sobre isso. Sobre como, às vezes, a nossa percepção de onde estamos na vida, está errada, porque a gente se compara o tempo inteiro.
E, ao mesmo tempo, sobre como a gente também se sabota, porque perde muito tempo no dia a dia procrastinando com coisas que não são importantes.
O que aconteceu depois que excluí o Instagram e o Facebook

Eu excluí as minhas redes sociais, mais especificamente o Instagram e o Facebook, há um ano e meio atrás (no ano de 2025). Não sei se, em algum momento da vida, vou terei que voltar por questões profissionais, mas na minha vida pessoal essa decisão foi muito importante.
Sinto que a minha saúde mental melhorou muito desde então.
Antes, eu estava constantemente me comparando, mesmo que de forma inconsciente, e isso produzia um grau considerável de insatisfação interna.
E, impressionantemente, quando eu me dei conta de que estava constantemente me sentindo insatisfeita, eu tinha uma boa vida: estava fazendo meu mestrado nos Estados Unidos e vivendo um momento de grande realização profissional.
Mesmo assim, eu sentia uma insatisfação crônica com o lugar onde estava e com as coisas que estava fazendo. Isso porque, todos os dias, por algumas horas ou em pequenos momentos, eu ficava me conectando com o que as outras pessoas estavam fazendo nas redes sociais e nada na minha vida parecia bom o bastante.
Antes, a gente se comparava com pouca gente

Toda essa experiência de comparação é uma coisa muito bizarra, porque, na maior parte da história da humanidade, você ficava sabendo da vida de um grupo muito restrito de pessoas: quem fazia parte da sua tribo, quem morava no seu bairro ou na mesma região geográfica.
Nem precisa voltar tanto no tempo.
Na época dos meus pais, quando alguém se mudava de uma cidade para outra, perdia contato com muita gente: quem tinha estudado com você, quem morava na mesma rua, quem frequentava o mesmo bar de esquina.
Você passava a estar conectado com a realidade do novo lugar e somente com as pessoas de lá, com exceção de parentes e amigos que mantinham contato por telefone e carta.
A vida sempre se atualizava, e você não ficava se comparando com um mundo de pessoas que tinha conhecido em algum momento no passado.
Hoje, com as redes sociais, você pode estar conectado com alguém que estudou com você há 20 anos e que você não vê pessoalmente há 15.
E não é apenas uma pessoa: são dezenas, centenas.
Hoje dá para ficar conectado com praticamente todo mundo que você já conheceu ao longo do tempo: quem trabalhou com você, estudou, morou na mesma rua, etc.
O feed como régua da sua vida
Agora pense que cada uma dessas pessoas, em algum momento do dia, está postando alguma coisa.
Você rola o feed e vê: fulano casou, sicrano comprou uma casa, o outro comprou um carro, não-sei-quem passou as férias dos sonhos no Egito, fulaninha de tal foi aprovada no doutorado, o ex-colega de classe mudou de um país para outro, a ex-colega mudou de cidade, e por aí vai.
Para o nosso cérebro ainda primitivo, que não consegue lidar com essas tecnologias porque elas são muito recentes, você está se comparando com todas essas pessoas automaticamente. O seu feed é a sua tribo.
E esse é o ponto que as pessoas não percebem: não é que você seja mais invejoso que o coleguinha do lado. É que a comparação é natural, afinal, somos seres sociais.
Só que antes a gente convivia e se comparava com quem estava ali, vivendo o dia a dia com a gente. Era um número muito restrito de pessoas. Agora, a gente se compara com todo mundo, inclusive com gente que nem conheceu de verdade.
E aí vira uma loucura, porque a sua vida nunca vai estar boa. Como competir com o highlight, cheio de filtros e poses milimetricamente pensadas, de centenas, milhares de pessoas?
Como é que você vai ter uma vida tão boa quanto o que o feed do seu celular te mostra todos os dias?
O cérebro não distingue muito bem o que você vê do que você vive

O cérebro, inclusive, não diferencia muito bem a experiência que você tem assistindoa um filme ou vendo um reels, por exemplo, de algo que você realmente vive na sua vida. Existe todo um estudo sobre neurônios-espelho que ajuda a explicar por que isso acontece: muita coisa que a gente vê através das mídias, o nosso cérebro acredita que está vivendo.
Então, quando você vê a sua prima passando férias em algum lugar incrível, é como se, mesmo sem vê-la há muito tempo, você estivesse vendo essa pessoa em carne e osso fazendo tudo aquilo, porque o cérebro não consegue distinguir imagens que vistas na tela da realidade.
E quando você é espectador da vida de dezenas, talvez centenas de pessoas todos os dias, o resultado é a impressão de estar atrasado na vida, porque a sua tribo (que agora é basicamente toda a internet) está fazendo coisas incríveis o tempo todo (e você não).
Quando eu consegui me dissociar das redes, parei com essa comparação e, automaticamente, me tornei muito mais feliz com a minha vida.
Mas existe também o atraso de verdade: a procrastinação

Ao mesmo tempo em que as redes te dão uma falsa sensação de que você está atrasado, você acaba se atrasando em algumas coisas de verdade, porque procrastina e perde muito tempo.
Imagine que você quer emagrecer. Para isso, precisa fazer a sua dieta e, no final do dia, preparar os alimentos, deixar tudo pronto na geladeira para não cair na tentação de comer besteira no dia seguinte. E isso tem que ser feito no fim da noite.
Digamos que você ainda tenha uns 30 minutos de energia no final do dia para fazer isso.
Em vez de fazer, você fica rolando o feed no Instagram, e os 30 minutos passam. Você já trabalhou, já lidou com filho, marido, esposa, pai, mãe, amigo, mil coisas, já está cansado, e fala: “Ai, tá bom, amanhã eu faço a dieta certinho.”
E vai dormir.
Você repete isso dia após dia, e, no final das contas, realmente acaba atrasado nos planos que importam para você hoje.
Não porque está se comparando negativamente com alguém, mas porque tem planos reais, importantes para você nesse momento e que não saem do lugar, já que o seu cérebro foi capturado e viciou em gastar tempo com coisa inútil na internet, tempo que deveria ser usado para construir o que importa na vida.
E eu falo isso sem ser perfeita, porque eu também faço isso. Graças a Deus estou num momento muito bom do meu trabalho, conseguindo dedicar energia ao meu negócio, mas também caio na procrastinação de tempos em tempos.
Quando você trabalha muito, a tentação é sempre dar uma desculpa: “Já trabalhei nove horas hoje, então vou ficar vendo umas besteirinhas na internet.”
E você diz para si mesmo que esse é o seu momento de lazer. Será que é mesmo?
Lazer de verdade não é rolar o feed

O lazer de que a gente precisa é aquele que desconecta e deixa o cérebro descansar de alguma maneira.
Brincar com o filho, passar tempo com o companheiro(a), estar na natureza, ir a uma peça de teatro, escutar música em algum lugar.
São formas de estimular o cérebro de maneiras diferentes do que ficar olhando para uma tela. Ou, se você quer olhar para uma tela, que seja para ver um filme legal.
Lembro que, no passado, antes dessa febre de redes sociais, eu assistia a filmes maravilhosos, justamente porque era mais difícil assistir às coisas. Não tinha Netflix, não tinha nada disso. Eu ia atrás dos filmes que eu realmente queria ver e via tanta coisa legal!
Sentia que havia um lazer mais completo (mesmo que fosse em frente às telas). É uma experiência diferente de ficar vendo um monte de vídeo aleatório, em que o tempo passa e, no final, parece que o seu cérebro nem descansou direito, que você nem teve um momento de lazer verdadeiro.
É muito diferente ficar rolando o feed de sentar para comer com alguém que você ama. É diferente de sair de casa e ir ao cinema. E a gente precisa aprender a diferenciar essas coisas.
Cada pessoa tem a sua própria linha do tempo

Você não está atrasado em comparação com o que as outras pessoas estão fazendo, porque a sua vida é única.
Você está aqui para ter relacionamentos em momentos específicos, para se desenvolver na carreira em momentos específicos, para ter filhos (se esse for o seu plano) em momentos específicos, para ter mais independência e a sua própria casa em momentos específicos.
Esse momento específico não é definido pela sociedade (embora ela tente!). É definido pela sua alma.
Cada um tem uma linha do tempo diferente para realizar as coisas.
Mas, no momento da vida em que você está agora, provavelmente existem coisas específicas que você gostaria de realizar (como cuidar da saúde, passar num concurso ou ter momentos de lazer com os amigos).
Não deixe que a procrastinação te impeça de fazer o que é importante para você hoje.
Tecnologia como ferramenta, não como outra forma de escravização
Eu falo isso para você hoje porque eu também preciso ouvir tudo isso. Eu também faço todas essas coisas, mas estou cada vez mais consciente, me comparando menos e tentando estar mais presente.
E essa é uma conversa importante porque a tecnologia não vai diminuir.
Não vamos ter menos tecnologia no futuro. Por isso, a gente precisa entender cada vez melhor qual papel queremos que ela tenha na nossa vida. Senão, parece que a tecnologia usa os humanos, e não o contrário. A gente quer que ela seja uma ferramenta para construir aquilo que realmente importa, e não uma outra forma de escravização.
Eu tenho pensado muito nisso, principalmente agora que trabalho na internet. A tecnologia é maravilhosa, mas, por ser tão poderosa, precisa ser operada com cuidado.
Para refletir
Essa conversa faz sentido para você? Conta nos comentários!
Qual plano realmente importante você tem na sua vida hoje que talvez esteja deixando de pôr em prática pela procrastinação?
Você não está atrasado, esquece as comparações.
E procrastinar menos vai te ajudar a perceber isso.